As Seis Filosofias da Índia

Por Paulo Ramos

Há pelo menos 6 correntes de pensamentos clássicos da filosofia indiana, as quais correspondem a 6 pontos de vista de uma única tradição ortodoxa.

DENOMINAÇÃO

FUNDADOR REAL OU SUPOSTO

Sãnkhya

Kapila ( por volta de 700 AC )

Yoga

Patãnjali ( por volta de 300 AC )

Vaisesika

Gautama ( por volta de 150 AC )

Nyãya

Kanãda ( por volta de 300 DC )

Mimãmsã

Jaimini ( por volta de 350 DC )

Vedanta

Sãnkhara ( por volta de 800 DC )

Seus sütra (aforisma, sentença, preceito, guia) iniciam e culminam com abundantes comentários da ortodoxia, tendo cada um deles argumentos contra todos os demais. Sem os comentários os textos seriam ininteligíveis, pois fazem o papel de um fio mnemônico que guia o ensinamento oral.

FILOSOFIAS SÃNKHYA E YOGA

Sãnkhya - expõe a teoria básica da natureza humana definindo elementos, analisando a mútua cooperação no estado de aprisionamento (bandha) e descrevendo a condição de emancipado (moksa).
Yoga - trata da dinâmica do processo para livrar-se das ataduras, delineando técnicas para obter a emancipação ou o isolamento - integração.
“As pessoas infantis e sem instrução falam do conhecimento enumerativo (Sãnkhya) e da prática da concentração introvertida (yoga) como sendo diferentes uma da outra, mas aquele que se estabelece firmemente numa delas, obtém o fruto de ambas. Há quem considere ambas como sendo uma mesma coisa.
São sistemas dualistas cujas concepções básicas são:
O universo é sustentado por mônadas vivas (purusha) e matéria inanimada (prakriti);
Prakriti manifesta-se sob 3 aspectos (gunas) como fios trançados de uma mesma corda;
Cada purusha associada a prakriti está envolvida na trama de uma ronda de transmigração (sansãra).
Estas idéias não são da linha principal da tradição bramânica, nem se baseiam no panteão védico. Suas origens são mais mecanizadas, meio históricas e meio lendárias. Aparecem nos Upanishad e no Bhagavad Gitã, já mescladas e harmonizadas com as principais idéias védicas. Isto mostra que a mentalidade bramânica esotérica, exclusivista dos invasores arianos, tornou-se receptiva às sugestões da civilização nativa.

VEDÃNTA

Um sistema filosófico que tem mútua correspondência com o sistema Mimãmsã; ambas representam o princípio transcendente Brahma além do dualismo purusha-prakriti (espírito-matéria).
Na tradição ariano-védica o Eu - Ser universal - habita o indivíduo e lhe dá a vida; transcende o corpo físico, o corpo sutil psíquico e não dispondo de órgãos sensoriais para experienciar, é quem lhes dá a força vital para agir. A filosofia Vedãnta avança pela relação entre a criatura fenomênica e seu anônimo núcleo imperecível, encoberto por diversos envoltórios perecíveis; expressa-se em estrofes adivinhatórias enigmáticas:
“O cego encontrou a jóia;
O sem-dedos a pegou;
O sem-pescoço a vestiu;
E o mudo a elogiou.”
O possuidor do corpo não tem olhos, mãos, pescoço e voz, mas realiza tudo através dos corpos denso e sutil, que lhe servem de moradia e veículo; é o verdadeiro ator de todos os atos, mas a eles permanece indiferente, seja na alegria ou no sofrimento.
Ortodoxamente, o supremo dever religioso do homem relativamente aos deuses e aos ancestrais tem sido sempre o de oferecer sacrifícios; o habitante do corpo que preside as obras do indivíduo é quem desempenha este ofício, bem como todas as ações das criaturas, presentes, passadas ou futuras - para ele não há tempo. A autodescoberta e a autoexpressão nunca foram estudadas como meios pelos quais o indivíduo poderia realizar-se.
A primitiva filosofia védica representava o Eu Universal como o supremo reitor de todos os centros de atividade fenomênica e, ao mesmo tempo, testemunha indiferente a tudo - correspondia ao Ser Supremo das mitologias populares indianas: o Senhor Criador, Conservador e Destruidor do mundo. Assim, a realização do indivíduo era buscada anulando a própria individualidade: cada um era tudo.
As filosofias pré-ariano-védicas da Índia, por outro lado (Jainismo, Sãnkhya e Yoga), atribuíam um papel passivo ao Eu Universal, descrevendo-o não como uma força e substância do cosmo, mas como uma mônada vital individual - não havia um Ser divino único que emana energia e substância desde um abismo transcendental. Toda a ação pertencia ao mundo da matéria. Cada mônada vital era uma entidade individual e, segundo o Jainismo (Mimãnsã), um habitante solitário da matéria cósmica, ou conforme a Sãnkhya, o reflexo do redemoinho daquela mesma matéria. As mônadas são comparadas a rolhas flutuantes passivas no grande rio das águas cósmicas dos ciclos de nascimentos e mortes. Não eram reflexos de um poder divino universal, faíscas de eterna chama, substancialmente idênticas a ele e entre si, nem pretendiam fundir-se em algum ser único - procuravam realizar seu próprio e intrínseco isolamento, desembaraçando-se da matéria na qual se via inserido e flutuando, e, com isto, libertando-se. Isto os diferenciava dos hinos védicos, das Upanishad e dos ensinamentos do Bahgavad Gitã.
Sãnkhara, fundador deste Sistema não dualista, consta ter vivido apenas 32 anos. Lendariamente um discípulo de Govinda. Filosofava sobre Brahmasutra, Bahgavad Gitã e os Upanishad, deixando a importante obra de Vivekacudamãni; sistematizou a doutrina que tomava o Eu Universal (Ãtman) como única realidade e tudo o mais como produto da ignorância (avydia) , incluindo o cosmo e o ego interior ; afirma que, quando o Eu Universal é conhecido, não há mayã.
A Vedãnta postula que o Eu Universal está oculto por 5 envoltórios psicossomáticos:

ENVOLTÓRIO PSICOSSOMÁTICO

COMPOSIÇÃO

CORPO

PLANO
DA CONSCIÊNCIA

Anna-mãyã-kosha

Alimentação

Denso

Vigília

Prana-mãyã-kosha

Respiração

Forças vitais

Adormecida

Mano-mãyã-kosha

Sentidos

Sutil

Sonho

Vijnãna-mãyã-kosha

Compreensão

Mais sutil

Sonho

Ãnanda-mãyã-kosha

Beatitude

Causal

Sono profundo

 O Eu Universal está além do corpo causal; não brilha como água num tanque coberto por grossa massas de matéria densa criada de seu próprio poder.
Tal como na filosofia Sãnkhia, a Vedãnta estabelece que somente a sabedoria consegue atingir a liberação (moksa) dos envoltórios e cadeias de ignorância. Esta sabedoria já está presente no interior de cada um - a liberação é a realização de nossa natureza e pode ser obtida pelo pensamento crítico (segundo a Sãnkhia) e pelas práticas de expansão da mente (segundo a Yoga).
As virtudes morais são praticadas como exercício preparatório da transposição final. O candidato à Escola vedantina tem de haver cumprido os deveres sociais e religiosos (Dhãrma); estar qualificado por nascimento, estudado os 4 Veda, ser capaz de discriminar as coisas permanentes das transitórias, possuir 6 virtudes, ter fé e assistência de um guru qualificado.
O grande tema do pensamento vedantino é a identidade da mônada vital individual com Brahma, cuja natureza é pura consciência. Significa que o caminho da devoção tem de ser transcendido.

MIMÃNSA    

Trata-se da filosofia que se preocupa em esclarecer o aspecto litúrgico dos citados livros sagrados. Significa, etimologicamente, pensamento profundo, reflexões, exposição sobre o Veda. É classificada em duas correntes: Purva ou Karma-Mimãnsa, uma reflexão da 1ª parte que trata do estudo do karma, ação ou ritual; Uttara ou Brahma-Mimãnsa, que trata da contemplação de Brahma. Como ciência escolástica sacerdotal, define os cânones ortodoxos, nem sempre designados nos Veda, abordando interpretações divergentes. Assemelha-se à ”Suma Teológica” de S. Tomaz de Aquino e divide-se em 5 partes:Formula uma proposição;Refuta dúvidas quanto à legitimidade;Expõe o método errôneo de tratamento;Refuta os inaplicáveis;Apresenta a solução verdadeira 
EXEMPLO1-A: O estudo do Veda é obrigatório para as castas superiores;1-B: O dharma é um tema adequado para estudo;2 - Proposição 1-A é legítima por evidência nos preceitos védicos - “Deve-se estudar o Veda” e “Deve-se executar o rito do banho final após estudar o Veda”;3 - Surge a dúvida em 1-B: o banho é imediato ao aprendizado do Veda ou ao terminar o estudo? O estudo não é feito apenas pela simples leitura e por isso o banho deveria ser adiado até que o estudante compreenda perfeitamente o Veda; 
A Mimãnsa sustenta a infalibilidade dos Veda na interpretação do som; o sânscrito não é um idioma baseado em convenções históricas, mas numa emanação do Ser ( sat ) através do som (sabda). Vem daí o poder atribuído aos mantras e hinos védicos que tocam o âmago da verdade e operam magias. Deles decorre a força que provoca os efeitos de um sacrifício, e não da intervenção divina, embora as oferendas sejam a ela dirigidas, pois é sustentada pelo poder do sacrifício. A Mimãnsa não reconhece a existência de Deus, mas tal como no Sãnkhya, não se opõe à crença nos seres sobrenaturais. Também rejeita a idéia da criação e dissolução periódica de todas as coisas - propõe um processo constante de vir-a-ser e de fenecer, sem sistematizar em ciclos de evolução e involução; afirma que o mundo é real.

VAISESIKA e NYÃYA 

Uma aborda a cosmologia e a outra a lógica. Ambas tratam dos dados da consciência desperta do ponto de vista da própria consciência desperta, o que as aproximam da ortodoxia filosófica ocidental. Os sutras (preceitos) da Vaisesika distinguem categorias na natureza caracterizando as diferenças pela condição atômica. Os átomos das várias substâncias não têm extensão, mas ao se combinarem, adquirem visibilidade. Na noite cósmica eles não se combinam e não há universo visível, embora as almas conservem seus méritos e deméritos e se unem aos diversos átomos, reiniciando o movimento de novo ciclo de criação. Tanto as almas como a mente são substâncias eternas, mas a alma penetra tudo, não estando presa ao tempo e ao espaço enquanto a mente é um átomo intermediário entre a alma e os sentidos. O átomo induzido pela alma dirige-se em cada ocasião ao sentido através do qual a alma deseja perceber ou agir; se ele ficar imóvel na alma, a união desta com os sentidos termina. Se a mente fosse onipresente como a alma, ou se esta pudesse entrar em relação imediata com os objetos de conhecimento, todos eles seriam percebidos simultaneamente. A mente autoriza a alma a conduzi-la mas freia-a para uma função de cada vez. Os sutras da Nyãya reconhecem quatro fontes de verdadeiro conhecimento: Percepção    Inferência Analogia Testemunho fidedigno A inferência, dada como o único meio seguro para o conhecimento filosófico, classifica-se em: a) da causa para o efeito b) do efeito para a causa raciocínio    c) da percepção ao abstrato O silogismo da Nyãya compreende 5 etapas :

SILOGISMO

EXEMPLO

Proposição

Há fogo na montanha

Causa

Porque sai fumaça da montanha

Exemplificação

Onde tem fumaça, tem fogo

Recapitulação

Sai fumaça da montanha

Conclusão

Portanto, há fogo na montanha

Aqui surge a chamada “Associação Invariável” não usada no ocidente, pois costumamos iniciar o silogismo com uma afirmativa universal válida, como: “Toda fumaça pressupõe a existência de fogo”. A Nyãya faz uma associação invariável entre a fumaça e o fogo; o sinal observado (fumaça) está ligado ao veículo do sinal que deve ser inferido (fogo) - onde tem fumaça, tem fogo! André Guenon chama a atenção que tomados as 3 primeiras ou as 3 últimas como formas abreviadas das etapas, temos a semelhança com o silogismo de Aristóteles. Quando os Sistemas Vaisesika e Nyãya vieram a se combinar, a Escola unificada assumiu concepções teístas, sem ver no Deus pessoal adotado um criador da matéria. Sustentam, em harmonia com a doutrina da Yoga, um Deus como uma alma distinta como todas as outras almas individuais e eternas, distinguindo-se por ter os atributos da onisciência e onipotência que a qualifica para reger o universo, e sem os atributos que provocam os ciclos existenciais das outras almas. Prega o desapego ascético culminando num estado de absoluta inconsciência, tal como a filosofia Sãnkhya.

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